Não, não é uma nova versão da Cinderela, nem um Gato
Borralheiro do século XXI. Esta estória também se podia chamar «O menino
teimoso» ou «O menino cansado».
O Gabriel andava cansado de tanto brincar, nos longos dias
de Verão, entre jogos e mergulhos. Os chinelos com que andava nessas atividades
estavam gastos e o aplique onde se enfia aquela zona entre o dedo grande e o
indicador do pé (para aqueles que apontam com os pés) soltava-se com
frequência.
A casa onde esta família foi passar esse fim-de-semana situava-se
no centro da cidade. Iam com o propósito de ouvir estórias e palavras
andarilhas que alguém contava de dois em dois anos no jardim público.
Já tinham andado mais de meio caminho quando, depois do
Gabriel muito ficar para trás a compor os chinelos, eis que um deles se parte
ao meio! E agora?
- Voltar atrás ia fazer perder muito tempo. Os contos estavam a decorrer, se calhar a acabar;
- O carro tinha ficado ao pé de casa;
- Não havia lojas abertas aquela hora que vendessem chinelos.
Resolveu-se continuar. O jardim já estava perto. Entre dar
uns passos descalço, outros às cavalitas, lá chegou e passou umas horas de
encantar e de (en)contar!
O jardim parecia uma floresta mágica, com luzes e folhas de
papel penduradas das árvores e vários adereços domésticos, todos pintados de
branco a enfeitar. Havia cómodas brancas e muitos sapatos brancos deixados à
entrada do jardim, como alguém os tivesse tirado antes de entrar em casa.
Quando a noite acabou (já passava da meia-noite e não houve
badaladas nem baile) voltou-se à questão de como é que o menino cansado, de 9
anos, quase 10, voltava para casa a pé.
A partir daí a estória parecia a do «Velho, o menino e o
burro». Conhecem?
- A mãe sugeriu que ele metesse o pé sem chinelo em cima do seu e assim caminhassem, como se tivessem os pés atados. O menino cansado não deu nem um passo.
- A irmã de 14 anos quis levá-lo às cavalitas, mas era longe de mais para isso.
- O pai achou que devia ser ele a fazê-lo.
Ainda não tinham saído do jardim, estavam a passar por todos
aqueles pares de sapatos pintados de branco que faziam parte da decoração,
quando o pai carregado e sem fôlego brincou que dava vontade de ir buscar uns…
Sapatos brancos? – perguntam vocês.
Sim, muitos pares de sapatos brancos, de todos os tamanhos e
formatos, ficavam lindos no relvado da entrada do jardim, por baixo da estátua
do…
SAPATOS BRANCOS??
É que não era tarde nem era cedo! A mãe avançou e
rapidamente escolheu uns crocs, tamanho ideal para o pé do Gabriel. Uns crocs
de borracha! Não eram de esferovite nem outro material, não eram apenas uns
sapatos decorativos, eram mesmo uns sapatos – com dois pés, imaginem!- pintados
propositadamente de branco para o evento.
E foi nessa altura que o menino cansado – já era muito tarde
e o dia tinha sido longo – gritou que não queria roubar o cenário… e devolveu
os crocs ao relvado.
E lá continuaram, o pai e a irmã, um puxava por uma perna e
dizia que a levava em cima da cabeça, outro puxava por outra e dizia que a
levava debaixo do braço…
Sabem o que faz falta na estória do velho, o rapaz e o
burro?
Porque – e aqui fica a lição- se virmos no caminho algo que
nos faz muita falta e não é de ninguém, é porque deve ser para nós. E não se
nega a ajuda do universo!
Então, aqui a mãe parou e disse ao pai e à irmã: «Vão-se
embora os dois. Nós já vamos lá ter.»
E disse ao filho que não saiam dali os dois enquanto ele não
fosse buscar os crocs brancos. O menino cansado protestou, esperneou,
resmungou, mas foi, quando quase toda a gente já tinha saído, deixando em troca
o seu chinelo colorido no meio dos outros sapatos brancos.
E juntos, mãe e filho, voltaram para casa com os quatro pés
calçados.



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