domingo, 2 de setembro de 2018

As muitas formas de olhar para um chinelo_A Mãe



Não, não é uma nova versão da Cinderela, nem um Gato Borralheiro do século XXI. Esta estória também se podia chamar «O menino teimoso» ou «O menino cansado».
O Gabriel andava cansado de tanto brincar, nos longos dias de Verão, entre jogos e mergulhos. Os chinelos com que andava nessas atividades estavam gastos e o aplique onde se enfia aquela zona entre o dedo grande e o indicador do pé (para aqueles que apontam com os pés) soltava-se com frequência.
Na véspera daquele dia (ou daquela noite, melhor dizendo) a mãe tinha dito que era melhor deitá-los fora e comprar outros quando fossem de fim-de-semana a Beja. Todos se lembravam da passagem por Salamanca no Verão passado, onde o Gabriel partiu um chinelo à noite e teve de percorrer a cidade ao pé-coxinho até encontrar uma loja aberta onde se pudessem comprar outros. Mas o Gabriel (ou «O menino Cansado») gostava de provocar as situações e quando se fizeram as malas ninguém percebeu que os chinelos mais-ou-menos-estragados também lá iam…
A casa onde esta família foi passar esse fim-de-semana situava-se no centro da cidade. Iam com o propósito de ouvir estórias e palavras andarilhas que alguém contava de dois em dois anos no jardim público.
Já tinham andado mais de meio caminho quando, depois do Gabriel muito ficar para trás a compor os chinelos, eis que um deles se parte ao meio! E agora? 
  1. Voltar atrás ia fazer perder muito tempo. Os contos estavam a decorrer, se calhar a acabar;
  2. O carro tinha ficado ao pé de casa;
  3. Não havia lojas abertas aquela hora que vendessem chinelos.
Resolveu-se continuar. O jardim já estava perto. Entre dar uns passos descalço, outros às cavalitas, lá chegou e passou umas horas de encantar e de (en)contar!


O jardim parecia uma floresta mágica, com luzes e folhas de papel penduradas das árvores e vários adereços domésticos, todos pintados de branco a enfeitar. Havia cómodas brancas e muitos sapatos brancos deixados à entrada do jardim, como alguém os tivesse tirado antes de entrar em casa.

Quando a noite acabou (já passava da meia-noite e não houve badaladas nem baile) voltou-se à questão de como é que o menino cansado, de 9 anos, quase 10, voltava para casa a pé.
A partir daí a estória parecia a do «Velho, o menino e o burro». Conhecem?
  1. A mãe sugeriu que ele metesse o pé sem chinelo em cima do seu e assim caminhassem, como se tivessem os pés atados. O menino cansado não deu nem um passo.
  2. A irmã de 14 anos quis levá-lo às cavalitas, mas era longe de mais para isso.
  3. O pai achou que devia ser ele a fazê-lo.

Ainda não tinham saído do jardim, estavam a passar por todos aqueles pares de sapatos pintados de branco que faziam parte da decoração, quando o pai carregado e sem fôlego brincou que dava vontade de ir buscar uns…
Sapatos brancos? – perguntam vocês.
Sim, muitos pares de sapatos brancos, de todos os tamanhos e formatos, ficavam lindos no relvado da entrada do jardim, por baixo da estátua do…
SAPATOS BRANCOS??
É que não era tarde nem era cedo! A mãe avançou e rapidamente escolheu uns crocs, tamanho ideal para o pé do Gabriel. Uns crocs de borracha! Não eram de esferovite nem outro material, não eram apenas uns sapatos decorativos, eram mesmo uns sapatos – com dois pés, imaginem!- pintados propositadamente de branco para o evento.
E foi nessa altura que o menino cansado – já era muito tarde e o dia tinha sido longo – gritou que não queria roubar o cenário… e devolveu os crocs  ao relvado.
E lá continuaram, o pai e a irmã, um puxava por uma perna e dizia que a levava em cima da cabeça, outro puxava por outra e dizia que a levava debaixo do braço…
(…Pausa para suspiro!)

Sabem o que faz falta na estória do velho, o rapaz e o burro?
Uma mulher! Ou mais do que uma mulher, uma mãe!
Porque – e aqui fica a lição- se virmos no caminho algo que nos faz muita falta e não é de ninguém, é porque deve ser para nós. E não se nega a ajuda do universo!
Então, aqui a mãe parou e disse ao pai e à irmã: «Vão-se embora os dois. Nós já vamos lá ter.»
E disse ao filho que não saiam dali os dois enquanto ele não fosse buscar os crocs brancos. O menino cansado protestou, esperneou, resmungou, mas foi, quando quase toda a gente já tinha saído, deixando em troca o seu chinelo colorido no meio dos outros sapatos brancos.
E juntos, mãe e filho, voltaram para casa com os quatro pés calçados.
E quem regressou no dia seguinte ao jardim, diz que avistou ainda de manhã os dois crocs brancos junto ao chinelo de criança colorido. Quem sabe se foi o menino que os foi devolver?

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